Mostrando postagens com marcador histórias. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador histórias. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

A Rosa Assombrada

Há mais ou menos cem anos, vivia em Bom Despacho uma moça órfã que vira e mexe ia rezar para Santo António e acabou arrumando um fã: o sacristão.

Certo dia, a moça estava rezando com muito fervor. Sem perceber,pediu em voz alta:

- Santo António, me dá um sinal! Quero saber com quem eu vou me casar...

O sacristão que estaca atrás do altar, aproveitou a deixa e sapecou tia hora, disfarçando a voz!

- Você vai casar com aquele que lhe entregar uma roas bem na saída da igreja.

Depois, tratou de sair pela porta da sacristia, para pegar depressa a primeiro rosa no primeiro túmulo do cemitério e ir para a frente da igreja.

Acontece que o túmulo era justamente o da mãe da órfã, mas o sacristão só se lembrou disso quando apareceu. Sentiu um frio na espinha. Havia muita neblina naquele final de tarde chuvoso, mas mesmo assim, olhando para o lado do cemitério, dava para ver o túmulo que tinha sido roubado.

A moça vinha no altar. Quando viu o sacristão lhe estender uma flor, arregalou os olhos e exclamou:

- Mãe! Era só uma exclamação.

Mas, o sacristão achou que a moça estava vendo a alma de mãe atrás dele.

Largou a flor e saiu correndo. Venha passando um rapaz bonito. Foi ele quem apanhou a rosa.

Ai aconteceu uma coisa realmente estranha. A moça escutou uma voz muito clara:

- Vai casar é com este!

Dito e feito. Alguns meses depois, a moça se casou com o rapaz bonito.

( Agora, cá entre nós, quem falou “Vai casar é com este.” Foi o sacristão – de novo. Ele olhou para trás enquanto corria, viu o rapaz entregando a flor, e adivinhou na hora.)

Angela Lago

Vamos esperar o setset chegar?


Meu tio vinha de uma longa viagem, perto de Bom Despacho começou uma tempestade horrorosa. Por sorte – ou por azar – ele viu uma casa abandonada. Entrou, sentou num canto para esperar a chuva passar, e como estava muito cansada, adormeceu.

Foi acordar no meio da noite com um bode bafejando na sua cara:

- Então?

Vamos esperar o Sestset chegar?

- Vamos ! – Ele respondeu por responder, seguro de que estava sonhando. E já ia caindo de novo naquele sonho bom quando escutou outro bode entrar pela casa:

- Oba! Vamos começar?

- Não, Dodô! Nós vamos esperar o Sestset chegar.

- Só posso estar sonhando – O tio se tranqüilizou.

Nisso, entrou outro bode:

- Então, vamos começar?

- Calma, Tretrê. Vamos esperar o Sestset chegar? – Disseram os que já estavam lá.

E antes que meu tio tivesse tempo de perguntar se aquilo era mesmo um sonho...

- Vamos começar? – perguntou mais um bode, com água na boca.

- Ainda não, Quaquá! Vamos esperar o Sestset chegar! – responderam todos juntos.

Ai meu tio acordou de vez, abobalhado de pavor, e viu entrar mais um, e mais outro.

- Vamos começar? – perguntaram ansiosos, lambendo os beiços.

-Ainda não, Cincin e Seisei. Vamos esperar o Sestset chegar? – a turma respondeu.

Quanto nome esquisito, pensava o tio, com o resto de pensamento de que ainda era capaz. E, para suportar o medo, começou a contar nos dedos:

- Depois do primeiro entrou Ddô, depois Tretrê, depois Quaquá, Cincin, Seisei... Já são seis com Seisei!!!

- Ele finalmente atinou.

- Minhas desculpas ao Setset, mas não vou esperar não! - Berrou meu tio, pulando a janela. E sumiu no mundo, deixando a gente sem um final direito para esta história.

Angela Lago

O Defunto que Devia


Em Bom Despacho tinha um moço que devia tanto e a tanta gente que sua vida virou um inferno. O tempo todo batiam na porta dele para cobrar. Até que uma noite ele não agüentou mais e decidiu se fingir de morto.

Na manhã seguinte, quando os cobradores chegaram, encontraram o moço de olhos fechados, todo vestido de preto, quietinho, deitado em cima da mesa.

- Coitado, perdeu mais do que qualquer um de nós – eles disseram, e foram embora.

Mas um sapateiro muito sovina, a quem o moço devia um real, não quis saber de perdoar a divida. Ficou na casa, à espera dos parentes, para cobrar de quem pudesse.

O moço lá, se fingindo de morto, e nada de parente nenhum chega. Mesmo porque morto pobre não tem parente. Acontece que o sapateiro, além de pão-duro, era cabeça-dura, e não arredou o pé. Queria seu real.

Escureceu, uns ladrões passaram por perto, viram a porta aberta, a casa em silêncio, e decidiram entrar. O sapateiro só teve tempo de enfiar debaixo da mesa.

- Eta defunto desgraçado, não tem uma alma velando por ele! Por ele! – comentaram os ladrões.

E aproveitaram para dividir umas moedas que tinham roubado. Sobrou uma , e um ladrão propôs:

- A moeda é do primeiro que enfiar uma faca no peito do morto!

O defunto reviveu na hora e desandou a gritar:

- UI ui ui!

- Ei ei ei! – o sapateiro escutou o morto gritando e, lá debaixo da mesa, também desandou a berrar.

Quando os ladrões viram o morto gritar e escutaram aquela voz responder, saíram em correria, deixando o dinheiro para trás.

Já iam longe quando o mais valente deles, pensando e repensando nas lindas moedas, tratou de convencer os amigos a voltar:

- São duas almas penada, mas nós somos três dependas.

Voltaram. A essa altura o ex-morto já estaca dividindo a fortuna com o sapateiro. Quando os ladrões chegaram perto da casa, escutaram o tinlintar das moedas sendo repartidas e...

- E o meu real? E o meu real?

- Ai ai ai! São muitas almas! – gritaram os ladrões. O dinheiro nem está dando! E desapareceram de vez, estrada afora.

Angela Lago

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Encurtando o caminho

Tia Maria, quando era criança, um dia se atrasou na saída da escola, e na hora em que foi voltar para casa já começava a escurecer. Viu uma outra menina passando pelo cemitério e resolveu cortar caminho, fazendo o mesmo trajeto que ela.

Tratou de apressar o passo até alcançá-la e se explicou:

- Andar sozinha no cemitério me dá um frio na barriga! Será que você se importa se nós formos juntas?

- Claro que não. Eu entendo você – respondeu a outra – Quando eu estava viva, sentia exatamente a mesma coisa.

Angela Lago